Os italianos e a Itália

Esse é um vídeo bastante interessante, no qual Indro Montanelli, jornalista italiano (que morreu em 2001) e Erri de Luca, jornalista e escritor (comentei sobre um livro dele nesse post aqui) comentam sobre a Itália e os italianos.

Nós, brasileiros, acabamos de passar por eleições municipais. Vejam se encontram semelhanças entre os discursos desses dois estudiosos sobre a Itália e a realidade brasileira:

A entrevista com Montanelli é de 1999 e fala sobre o futuro tanto da Itália quanto dos italianos.

O entrevistador já pergunta de cara qual o amanhã para a Itália e Indro já rebate que nenhum porque é um país que ignora o próprio passado (ontem, na palavra literal de Montanelli) e que não sabe nada e não se assegura de saber nada, então não pode haver um amanhã.

Ele ainda menciona que um grande mestre e benfeitor seu lhe disse há muitos anos que a Itália é um país de contemporâneos, sem antepassado porque não tem memória. Na época, Indro achava que era um paradoxo e que depois ele percebeu que seu professor tinha toda razão.

A Itália tem uma história extraordinária, mas não a estuda, não a conhece. É um país ignorante de si mesmo.

Montanelli defende que talvez para os italianos o futuro seja brilhante, mas para os italianos e não para a Itália porque os italianos normalmente realizam trabalhos em que são insuperáveis, principalmente em serviços, os italianos são imbatíveis.

O problema é que esses italianos deixam a Itália e acabam virando alemães, franceses, portugueses. São elásticos, e Montanelli enxerga isso tanto como um defeito quanto uma qualidade.

E ele encerra dizendo que para a Itália não vê um futuro, para os italianos, prevê um brilhante.

Então entra a entrevista de 2016 feita com Erri de Luca e entra afirmação seguida de pergunta:

Somos uma sociedade sem bússola, onde se precarizou até a última essência do ser humano. O que aconteceu na Itália?

Erri diz que o problema é que as pessoas passaram a pertencer a uma sociedade de clientes ao invés de cidadãos, como antigamente. As pessoas são valorizadas pelo seu poder de aquisição e com isso conseguem ter acesso a diferentes tipos de serviços.

Quando eram cidadãos, esses serviços eram um direito (saúde, escola, segurança), mas quando se tornam clientes, alguns conseguem pagar por esses serviços – que deveriam ser direitos.

O problema disso é que as pessoas deixam de fazer parte de uma comunidade, mas são pessoas sozinhas, valorizadas pelo que possuem no bolso, e tudo isso torna o reconhecimento do estatuto mais frágil.

De Luca menciona que o mundo tem um problema parecido, mas a Itália despreza muito a saúde pública. Algumas cidades emitem níveis de poluentes até 40% acima do permitido e ninguém faz nada.

Por esses motivos, Erri volta a destacar que há um desprezo pela vida simples, de direitos elementares, da cidadania. Tudo isso faz com que a percepção da realidade dos italianos seja muito precária.

A má gestão pública torna a vida dos italianos muito precária e insegura.

Em seguida, Erri responde qual o papel da mídia de massa nesse complicado quebra-cabeça de informações.

Infelizmente, Erri afirma que não existe mais um jornalismo difuso na Itália, que os jornalista são empregados, devem responder à política da agência, ter obediência. É o pior jornalismo da Europa, atrás somente da Bulgária. São poucos os tipos de jornalismo que aceitam se expor.

A internet é uma alternativa válida?

De acordo com de Luca, sim, é sistema de informação muito válido, mas o que falta é a capacidade de reagir a essas informações, intervir e utilizá-las. Ele ainda comenta que não é a internet que impede isso, mas o pessimismo de Sancho Pança, que não dá para fazer nada, que o mundo não muda.

Erri afirma: o mundo muda continuamente, mas é necessário arregaçar as mangas para tanto.

Enfim, de Luca deixa um conselho para aqueles que acreditam na mudança: desconfiem de qualquer informação oficial, coloquem em análise qualquer palavra da versão oficial.

Como ele diz: expedições de paz não são feitas com soldados – como o Governo nos faz acreditar -, mas com enfermeiros e quem acredita nisso (do Governo) se encontra em dificuldades. Precisamos controlar as palavras que colocamos na boca.


Infelizmente, é possível ver que da análise feita por Montanelli quase 20 anos atrás pouco mudou. E dá para encontrar muitas semelhanças, em ambos os discursos, com a realidade brasileira também.

Para refletir.

Vídeo: Entrevista com Montanelli e De Luca (Reprodução)

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2 comentários sobre “Os italianos e a Itália

    • Isabela disse:

      Tanto Itália quanto o Brasil têm suas coisas boas e suas coisas ruins. Fechar os olhos para o que acontece de ruim é simplesmente ignorar a realidade. Os relatos desses pensadores e jornalistas refletem, na minha opinião, exatamente o que acontece na Itália; não são absurdos. É como se algum brasileiro dissesse que a saúde aqui é ruim e que os brasileiros não conhecem sua própria história. Ao ignorarmos isso, fingindo que isso não acontece, estamos apenas ajudando na propagação desse tipo de pensamento e não contribuindo em nada para mudar nosso futuro ;)

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