Por que Moisés tem “chifres”?

Moisés de Michelangelo

Da série: obras magníficas que eu ainda não vi (e quero cortar os pulsos por conta disso!).

As pessoas normalmente atribuem os “chifres” de Moisés na obra de Michelangelo a um equívoco de tradução. São Jerônimo tentou traduzir com fidelidade o texto bíblico original e traduziu o termo Karan, baseado no radical karen, equivocadamente como “chifres”.

São Jerônimo teria descrito Moisés com um par de chifres ao retornar ao povo após receber os mandamentos pela segunda vez, quando na verdade, a tradução correta seria “reluzente” ou “brilhante”.

É como se Moisés tivesse voltado com uma aparência glorificada após receber os mandamentos. Com esse contexto, também é necessário nos lembrarmos de outro: que Michelangelo nunca dava ponto sem nó.

O escultor sentia profunda afinidade por Moisés porque o profeta, assim como ele, esculpia suas mensagens em pedras. Michelangelo recebeu o pedido para a escultura de Moisés para o túmulo monumental do Papa Júlio II, que ficaria no centro da Basílica de São Pedro.

Michelangelo quis demonstrar o dom de profecia de Moisés através de olhos, olhando para o futuro distante da humanidade. Ele utilizou a mesma técnica que usou para os olhos do Davi: olhos um pouco separados, profundos e não fixos no espectador.

Se você olhar para Moisés, perceberá que ele não olha diretamente para você, mas é como se estivesse olhando para o futuro.

O plano original do túmulo teria Moisés acima do piso no centro da estrutura piramidal (sim, o túmulo seria em forma de pirâmide) e Michelangelo, que sempre trabalhava com perspectivas, quis aproveitar a luz que entraria pelas janelas da Basílica diretamente no túmulo.

Michelangelo poliu incansavelmente o rosto de Moisés para fazer com que os reflexos dos raios de sol brilhassem em seu rosto. Fez inclusive duas saliências pontudas na sua cabeça para refletirem a luz do sol, dando a impressão de que a luz divina irradiava de sua cabeça.

Moisés nunca teve chifres, pelo menos, não na obra de Michelangelo.

Sendo planejado para ser visto acima do solo, essas saliências ficariam invisíveis para os visitantes que veriam a obra  por baixo e somente veriam a luz refletida nessas saliências: um efeito visual digno de Hollywood, mas isso em pleno século XVI.

No entanto, o Papa Júlio II faleceu antes que Michelangelo pudesse concluir seu túmulo, em grande parte, porque o escultor estava focado em terminar a Capela Sistina.

Michelangelo terminou o túmulo do Papa em questão, mas um túmulo muito mais simplório que o plano original, e não mais na Basílica de São Pedro. No centro da obra, ainda está seu famoso Moisés, acompanhado das estátuas de Raquel, à esquerda, e Lia, à direita.

Porém, Moisés já não seria mais visto acima do piso, como no Vaticano, mas o túmulo seria térreo e sem a iluminação das janelas do Vaticano, como planejado inicialmente, ou seja, Moisés não interagiria com o ambiente. O efeito da Basílica não funcionaria no novo local.

Mas Michelangelo é Michelangelo.

Ele simplesmente reesculpiu sua estátua preferida, terminada 30 anos antes, movendo o pé e a perna esquerda para dar a impressão de que Moisés está prestes a se levantar e sair pela porta, mas mais incrível que isso: ele girou a cabeça de Moisés a 90º para a esquerda.

Michelangelo esculpiu uma nova cabeça em Moisés a partir da antiga.

Por conta disso, os “chifres” dão a impressão de estarem torcidos, mas ainda assim, Michelangelo conseguiu adaptar a estátua para interagir com o novo ambiente: ele fez um buraco triangular no teto da igreja para direcionar a luz do sol ao rosto de Moisés e nos seus “chifres”.

Infelizmente, quem visita a Basílica de San Pietro In Vincoli em Roma, onde está o túmulo do Papa Júlio II, não poderá mais ver o efeito planejado inicialmente por Michelangelo porque as autoridades da igreja fizeram com que a abertura feita pelo artista fosse fechada para sempre.

Como Davi, Moisés não tem mais o efeito óptico planejado originalmente por Michelangelo.

Portanto, não, Michelangelo não fez um erro de leitura bíblico e colocou chifres em Moisés, ele queria apenas se aproveitar da luz do ambiente para que a estátua interagisse com ele, trazendo luminosidade divina ao rosto de sua obra preferida.

Ah sim, e Michelangelo sempre trollando a igreja católica:

Moisés de Michelangelo

Observou a estátua deitada acima de Moisés?

Era para ser o Papa Júlio II, afinal o túmulo é dele. Eu disse: era. Observou bem de novo? Pois é, o Papa já tinha morrido mesmo, então por que Michelangelo não poderia se retratar deitado tranquilamente observado sua obra preferida?

Gênio! rs

Fonte: Os Segredos da Capela Sistina, de Benjamin Blech e Roy Doliner
Fotos: Moisés de Michelangelo (Reprodução)

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5 comentários sobre “Por que Moisés tem “chifres”?

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