Vucumprà e sciuscià

Esses dias, acredito que por conta das notícias de imigrantes tentando alcançar a Europa que são divulgadas diariamente, eu me lembrei de uma expressão que me foi apresentada enquanto fazia intercâmbio: vucumprà ou vu’ cumprà.

Naquele momento, achei engraçado pelo distorção na sonoridade da língua – e a professora, que nos apresentou a expressão, pontuava isso -, assim como acho engraçado italianos falando inglês (às vezes é impossível entender, outras, não rir! rs).

Ao pesquisar sobre essa expressão, cheguei em outra, uma que brinca com italiano falando inglês: sciuscià (em português algo como xiuxiá).

Ela é uma deformação do termo shoe shine em inglês, usada depois da Segunda Guerra para indicar crianças napolitanas que se ofereciam para lustrar os sapatos dos soldados, mas não conseguiam pronunciar as palavras corretamente.

Sciuscià se difundiu completamente após o lançamento do filme de Vittorio de Sica de 1946 que leva esse nome. Hoje, os meninos lustradores são conhecidos como “lustrascarpe“.

Agora voltemos a expressão vucumprà, que também tem origem em uma distorção linguística, mas com um fundo racista.

Essa expressão começou a ser usada na metade dos anos 70 para indicar de forma pejorativa os vendedores ambulantes que vinham da África e não conseguiam falar a frase: “vuoi comprare?” (quer comprar?).

Muito embora seu uso esteja diminuindo e sendo trocado por termos como “immigrati” ou “extracomunitari“, ela ainda é usada nos dias de hoje até mesmo fazendo referência a italianos que façam “atividades precárias”.

Ainda também existe o seguinte estigma: se você compra de um vendedor ambulante da União Europeia, usa-se o termo “ambulante“; se o vendedor for de fora da União, “vucumprà“.

Essa expressão deu origem a uma série de expressões distorcidas com uma ajudinha extra da mídia: vu’ lavà, vu’ pregà, vu’ campà, vu’ aggiustà, vu’ drugà, vu’ parlà, vu’ giucà e assim sucessivamente.

Algumas pessoas me perguntam se o racismo e o preconceito são fortes na Itália e eu respondo que infelizmente sim. Eles ainda são uma realidade no país, algumas vezes, não explícitos, mas velados, como podemos perceber pelo simples fato do uso dessa expressão vucumprà não ter caído completamente.

Eu sei que tem muita gente que “vende” a ideia de uma Itália maravilhosa – e ela é, com sua cultura, história, artes e paisagens riquíssimas. Eu sou apaixonada por quase tudo lá. E eu gosto de ressaltar o quase. Certos pontos da cultura italiana são muito parecidos com os da brasileira e um deles é o preconceito. Querer negar isso é achar que o sol só brilha na Toscana.

Não sabendo a verdadeira origem dessa expressão, eu não vi maldade quando a professora a apresentou, mas hoje eu realmente me pergunto se não houve mesmo – os italianos são bons em disfarçar isso.

Por exemplo, ao buscar a origem dessa expressão, encontrei uma página que satiriza a ministra Cécile Kyenge, que luta contra o racismo.

Todos nós temos os nossos preconceitos. Às vezes, eles estão tão enraizados, que nós nem percebemos que temos. Normalmente, a gente só percebe quando ele atinge alguém próximo de nós.

Esse é um assunto delicado, mas que precisa ser falado.

Assim como esses milhares de imigrantes que estão tentando chegar à Europa para tentar uma vida que eu nem diria que é mais digna, apenas uma vida! Porque muitos continuam a enfrentar condições desumanas em solos europeus. E me aterroriza pensar que isso ainda é melhor que os seus países de origem.

E seria hipocrisia dizer que em um país tão miscigenado quanto o Brasil, o preconceito não existe. Não só existe como também é velado na maioria das vezes: “eu não tenho preconceito, mas…”. Queridos, nada de bom vem depois desse “mas”.

Eu sinceramente não sei como vai ficar a situação desses imigrantes, mas eu espero que não só a Itália, mas a Europa inteira seja capaz de um dia (e que seja logo) oferecer condições melhores para essas pessoas e que, de ambulantes, elas passem a ter empregos regularizados.

A Itália é linda, sim (assim como o Brasil é maravilhoso!), mas querer tapar os olhos somente porque um problema não te atinge é muita falta de compaixão e amor ao próximo.

Acho que cabe fechar o post com um provérbio que é italiano:

Alla fine del gioco, il re e il pedone tornano nella stessa scatola.
Ao final do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.

Foto: Vendas ambulantes na Itália (Reprodução)

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2 comentários sobre “Vucumprà e sciuscià

  1. nataliapessini disse:

    Muito legal! não conhecia essas expressões….
    Sobre o preconceito eu presenciei uma cena muito chata em um trem indo de Verona para Milão…foi ridículo e eu fiquei assustada. Um dia quem sabe conto no meu blog com mais detalhes. Acho que é uma situação delicada que exige atenção e cuidado…esses imigrantes precisam de apoio e estrutura no país em que estão chegando.
    Eu também amo a Itália e também vi muito defeitos e semelhanças com o Brasil, mas ainda prefiro ver a parte boa, hehe.

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    • Isabela disse:

      Pois é, esse assunto é bastante delicado! Por um lado, os imigrantes em situação complicada e do outro os italianos sem emprego. É difícil encontrar um equilíbrio… mas eu espero que o governo consiga encontrar!

      Curtido por 1 pessoa

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