5 curiosidades sobre o Arlecchino

Fonte: Carnevale di Venezia – 02/01/2015

Estamos próximos do Carnaval (amém, assim o ano pode finalmente começar! rs) e já falei um pouco daquele que acontece em Venezia aqui.

O tema do carnaval desse ano é a abundância (cuccagna), fazendo uma ligação com a Expo di Milano, que terá como tema “Nutrir o Planeta”.

Abaixo, cinco curiosidades de uma das máscaras de carnavais mais famosas do mundo, a do Arlecchino.

1. Arlecchino e a cuccagna, uma doce ligação

A máscara do Arlecchino, que começa a se difundir como a conhecemos hoje na metade do século XVI, é a síntese ou sobreposição de duas tradições: os Zanni de Bergamo e os personagens cômicos da farsa (ou farsesco) popular de origem francesa. A palavra farsa deriva do latim farcire, e funciona como intervalo entre dois dramas sérios. Mas a farcitura (recheio) lembra torta, festa, e a abundância (cuccagna) propriamente dita. O termo em italiano deriva do provençal cocanha, que tem origem gótica e significa torta.

2. O arlecchino satírico já famoso no século V a.C.

As mesmas origens agrícolas se reencontram no Arlecchino antes da farsa. Já no século XII, havia uma narração com um demônio chamado Arlecchino, e nos encontros subterrâneos entre o Arlecchino e a Cuccagna na comédia grega I Minatori, o mundo inferior era descrito como um verdadeiro país da Cuccagna, com mesas cheias de vinho e figos secos. Essa sátira brinca com as convicções religiosas sobre a vida após a morte, descrevendo uma vida feliz e sem dor dos mortos. O autor dessa obra (Ferecrate do século V a.C.) escolheu uma cortesã para o papel, que também atende pelo nome de Colombina, o interesse amoroso do Arlecchino, e também de origem humilde.

3. Arlecchino, o tolo em viagem para o paraíso da cuccagna

Incursões celestes, personagens grotescos e a Cuccagna se unem mais uma vez, séculos mais tardes, na sátira de Sebastian Brant, La Nave Dei Folli. Em forma alegórica, Brant imagina uma frota, depois dois navios, um direto para o paraíso dos tolos, Narragonia, e outro para o país da Cuccagna. Essa segunda direção pode indicar um paraíso mais acessível, na travessia. De qualquer forma, o país da Cuccagna é um lugar florido, com abundância de comida gostosa, bebida e descanso. Em resumo, o paraíso terrestre dos desonrados e dos pobres. O Arlecchino, a Columbina e os seus semelhantes estão entre esses.

4. Arlecchino e Dante, um intervalo cômico infernal

Uma ligação entre o Arlecchino e o mundo inferior aparece também em Dante, que chama de Alichino um diabo pertencente a tropa dos Malebranche, figuras grotescas que, considerando o tema da farsa, devem ser consideradas como um intervalo ou pausa cômica na composição da obra. O nome, neste caso, parece ter sido inspirado no demônio Harlequin, de origem provençal. A lenda diz que em uma noite tenebrosa, uma horda de cavaleiros amaldiçoados chegam aos céus juntos aos cães de caça, procurando alguma coisa que não foi dado para nós sabermos e nem que eles possam alcançar. A encabeçar esse grupo estaria Odin, Rei Artur, Carlos Magno ou o menos célebre Harlequin. Depois de um certo momento, esse bando de endemoniados é identificado como a gangue de Harlequin, que lembra a banda fantástica de Alichino. Parece, então, que o próprio Dante teria introduzido o futuro Arlecchino nas vestes do diabo Alichino que tem asas e é grotesco.

5. Interpretar o Arlecchino: ficção ou realidade?

O carnaval é a festa dos tolos por excelência. Marca a ponte entre a Terra e o mundo inferior, prelúdio a nova florada, a primavera, mas também o momento para honrar a alma dos mortos. As máscaras, e quem as usava, serviam como médium para os espíritos. Os atores e as atrizes que interpretavam os vários Arlecchino e Columbina, não tinham muitas dificuldades em se identificar com os papeis, pois também era de origens humildes e, muitas vezes, acostumados com a fome. Considerando a origem da palavra carnaval, que em latim quer dizer eliminar a carne, em referência ao banquete da terça, antes do período de abstinência e jejum da quaresma, novamente lidamos com a fome antiga e insaciável  do Arlecchino.

Arlecchino

Arlecchino

Não somente a máscara como representação simbólica, mas também os atores deveriam estocar para os tempos de vacas magras, já que na quaresma não podiam se apresentar. Quando surgiam as púrpuras cardinalícias (cor que simboliza o poder na Igreja Católica), nada de trabalho, logo, nada de comida: fim da Cuccagna. Os traços dessa proibição e da consequente miséria, ou má sorte, chegam até os dias de hoje na forma de superstição que vê como mau agouro a cor roxa no teatro.

Foto: Arlecchino (Reprodução)

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