Morar fora

Retirado do site em inglês, Thought Catalog, de maio de 2012.

Uma característica muito confiável de pessoas que moram fora é encontrá-las amontadas, juntas, em bares e restaurantes, falando não somente sobre suas terras natais, mas sobre a experiência de partir. E muito estranhamente, esses grupos de expatriados não necessariamente são do mesmo país, frequentemente, a mera experiência de trocar de terra e cultura é o suficiente para juntá-los e construir os alicerces de uma amizade. Eu conheci uma boa quantidade de expatriados – de duração de estadia variáveis – na América, e é tranquilizador ver isso na Europa, os bares “estrangeiros” são tão predominantes e preenchidos com a mesma conversa calorosa e nostálgica quanto.

Mas uma coisa que indubitavelmente existe entre todos nós, algo que ficar no ar, não mencionado, em todos nossos encontros, é o medo. Existe um medo palpável em morar em um novo país, e embora seja mais agudo nos primeiros meses, até mesmo ano, da sua estadia, nunca evapora completamente conforme o tempo passa. Ele simplesmente muda. A ansiedade que uma vez ficava concentrada em como você faria novos amigos, se adaptaria e dominaria as nuances do idioma, torna-se a questão repetitiva: “O que eu estou perdendo?”. Enquanto você se adapta em sua nova vida e novo país, enquanto o tempo passa e se torna menor a questão do quanto tempo você está e mais do quanto tempo você se foi, você percebe que a vida em casa seguiu em frente sem você. As pessoas cresceram, elas mudaram, elas se casaram, elas se tornaram pessoas completamente diferentes – e você também.

É difícil negar que o ato de morar em outro país, em outra língua, fundamentalmente muda você. Diferentes partes da sua personalidade meio que flutuam no topo, e você assume novas qualidades, maneiras e opiniões que definem as novas pessoas a sua volta. E não há nada de errado nisso; é parte do motivo pelo qual você partiu, em primeiro lugar. Você quis evoluir, mudar algo, colocar-se em uma nova situação desconfortável que forçaria você a entrar em uma nova fase de sua vida.

Então, muitos de nós, quando deixamos nossos países, queremos escapar de nós mesmo. Nós construímos enormes teias de pessoas, de bares, de cafés, de argumentos e de “ex’s” e os mesmos cinco lugares de novo e de novo, dos quais sentimos que não podemos nos libertar. Existem apenas muitas pontes que foram queimadas, ou amor que se tornou azedo e feio, ou restaurantes nos quais você já comeu tudo do menu, pelo menos, 10 vezes – a única forma de escapar e limpar a sua lousa e ir a algum lugar onde ninguém saiba quem você foi, e ninguém vai perguntar. E enquanto é amplamente refrescante e emocionante sentir que você pode ser quem quiser ser e vir sem a bagagem do seu passado, você percebe quanto de “você” era mais baseado na localização geográfica do que qualquer outra coisa.

Andar pelas ruas sozinho e jantar em mesas para um – talvez com um livro ou não – você fica sozinho por horas, dias com nada além de seus próprios pensamentos. Você começa a falar com você mesmo, fazendo perguntas e respondendo-as, e pegando as atividades do dia com uma lentidão e apreciação que você nunca tentara antes. Até mesmo ir ao mercado – quando em um lugar novo, quando sozinho, quando em uma nova língua – é uma atividade eletrizante. E ter que começar do zero e reconstruir tudo, tendo que reaprender como viver e fazer as atividades diárias como uma criança, fundamentalmente altera você. Sim, o país e suas pessoas terão seu próprio efeito em quem você é e o que você pensa, mas poucas coisas são mais intensas do que começar de novo com o básico e confiar em você mesmo para construir uma vida de novo. Ainda vou conhecer uma pessoa que não se viu acalmada pela experiência. Tem um certo conforto e confiança que você ganha com si mesmo quando vai para esse novo lugar e começa novamente, e um conhecimento que – aconteça o que acontecer no resto da sua vida – você era capaz de dar aquele salto e pousar suavemente, pelo menos uma vez.

Mas existem medos. E sim, a vida seguiu sem você. E quanto mais você fica na sua nova casa, mais profundas essas mudanças se tornarão. Feriados, aniversários, casamentos – cada evento que você perdeu de repente se torna uma marca em um bloco de papel sem fim. Um dia, você olha para trás e percebe que tanta coisa aconteceu na sua ausência, que tanta coisa mudou. Você acha cada vez mais difícil começar conversas com pessoas que costumavam ser seus melhores amigos, e piadas internas se tornam cada vez mais estrangeiras – você se tornou um estranho. Alguns ficam longe por tanto tempo que nunca podem voltar. Todos nós conhecemos expatriados que estão no novo país há 30 anos e que parece ter substituído todos os anos perdidos em sua terra natal com uma imersão completa e apaixonada em seu novo país. Sim, tecnicamente eles são imigrantes. Tecnicamente, a certidão de nascimento deles os colocaria em uma parte diferente do mundo. Mas é inegável que qualquer que tenha sido a vida que eles deixaram para trás, eles nunca conseguiriam pegar todas as peças. Aquela pessoa de antes se foi, e você percebe a cada dia, que você está um pouco mais perto de se tornar aquela pessoa – mesmo que não queira.

Então, veja sua vida, e os dois países que a seguram, e perceba que você é agora duas pessoas distintas. Não importa quanto seus países te representem e preencham partes diferentes de você e o que você curte da vida, não importa quanto você formou laços inquebráveis com as pessoas que você ama em ambos os lugares, não importa quanto você se sinta em casa em cada um deles, você está dividido em dois. Para o resto da sua vida, ou pelo menos é assim que parece, você passará seu tempo em um país “ranzinzamente” desejando pelo outro e até esperando que você possa voltar por pelo menos algumas semanas e voltar para a pessoa que você era lá. Demora tanto para moldar uma nova vida para você mesmo em algum lugar novo, e não pode morrer simplesmente porque você mudou de fuso horário. As pessoas que te apresentaram ao país delas e se tornaram sua nova família, elas não vão significar menos para você quando você estiver longe.

Quando você mora fora, você percebe que, não importa onde esteja, você sempre será um expatriado. Sempre haverá uma parte de você que está longe de casa e está dormente até que possa respirar e viver em cores novamente no país onde ela pertence. Morar em um lugar novo é uma coisa linda e emocionante, e pode te mostrar que você pode ser quem você quiser – nas suas próprias condições. Isso pode te dar o presente da liberdade, de novos começos, de curiosidade e excitação. Mas começar de novo, entrar naquele avião, não vem sem um preço. Você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, e de agora em diante, você sempre ficará acordado algumas noites e pensar em todas as coisas que você está perdendo em casa.

Achei esse texto tão lindo e verdadeiro sobre o que é morar no exterior. Eu não tive essa experiência (afinal, um mês fora não é nada), mas eu acredito que seja muito assim, sempre que penso na possibilidade, sinto meu coração dividido exatamente como o texto apresenta.

O coração dividido sempre entre os dois lugares, aquele desejo de voltar e ficar ao mesmo tempo, e a sensação de liberdade, de um novo começo que você poderá escrever livremente a sua maneira, sem ninguém do seu passado para dar pitaco.

E vocês, já tiveram experiência ou gostariam de vivê-la?

Foto: Morar fora (Reprodução)

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2 comentários sobre “Morar fora

  1. Thais disse:

    Ciao bella!
    Então… disperdicei uma chance de ter uma experiência no exterior e colho os frutos deste arrependimento até hoje, são eles que fortalecem minha vontade de continuar lutando para que se realize este sonho. Nem que seja aos 80 anos!
    baci bella e buon fine settimana!

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    • Isabela disse:

      Ciao, bella!

      Puxa que chato ter perdido essa oportunidade, MAS muito bom saber que você continua lutando e é isso mesmo!! Temos que correr atrás dos sonhos, não desistir deles! Torço muito para que você consiga realizá-lo!
      Baci e buon fine settimana!

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